10/01/2017 13h37

Ritual da Menina-Moça e a luta da Nação Guajajara pela preservação da tradição secular

Jacqueline Heluy/Agência Assembleia

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Ritual da Menina-Moça e a luta da Nação Guajajara pela preservação da tradição secular

Quatro horas da tarde na aldeia indígena Lagoa Quieta, município de Amarante, a 602 km de São Luís. O sol a pino lança seus raios sobre as copas das árvores que circundam um conglomerado de 20 casas de taipa cobertas de palha. No meio da aldeia avista-se uma espécie de oca, na qual estão confinadas seis meninas índias, entre 11 e 12 anos.

Dentro da oca reina total silêncio. Não há janelas, apenas uma pequena porta, por onde só podem passar as índias mais velhas. Não existem utensílio doméstico. Redes armadas nos caibros de juçareiras são levemente embaladas pelo vento que entra através das frestas deixadas pelas palhas que revestem as paredes.

As indiazinhas se mantêm o tempo todo em círculo e de cabeça baixa, como se estivessem em permanente estado de meditação.

Perto dali, em outro ponto da aldeia, cânticos em idioma tupi-guarani começam a ser entoados apenas por vozes masculinas.

Na estrada de terra batida que dá acesso à aldeia também está movimentada desde às primeiras horas da manhã quando iniciou-se o tráfego de caminhões trazendo em suas carrocerias e boleias dezenas de índios. Mulheres com crianças no colo, jovens e adolescentes descem carregando redes e sacolas e se arrancham nos barracões.

Fogos de artifício anunciam que neste dia haverá um grande evento. Cada comitiva de visitantes que chega é saudada com muita euforia pelos habitantes da aldeia.

Este é o cenário da Festa do Moqueado na aldeia Lagoa Quieta, também chamada de ‘Ritual da Menina-Moça’, tradição secular que vem sendo preservada pela nação indígena Guajajara, uma das maiores do Brasil. A maior parte dos guajajaras habita a reserva Arariboia, no Maranhão, abrangendo os municípios de Grajaú, Amarante e Santa Luzia,

O Ritual da Menina-Moça é realizado anualmente no mês de setembro. A festa reuniu na aldeia Lagoa Quieta cerca de 200 visitantes, entre índios de outras aldeias guajajara e também de outras tribos, como os Karipunas, do estado de Roraima.

Também contou com a presença de antropólogos, representantes da Funai, da Secretaria de Direitos Humanos e religiosos.

TRADIÇÃO SECULAR

O Ritual da Menina Moça, também chamado de Festa do Moqueado, acontece quando a menina índia tem a sua primeira menstruação. Simboliza a transição entre a infância e a chegada à vida adulta. Após ser submetida ao ritual, a garota está apta a namorar, casar, gerar filhos e executar todos as atividades das mulheres adultas da tribo. 

A cabana construída de palha e caibros de juçareira, em formato circular, na qual as seis meninas estão confinadas, se chama ‘tamuio’ e foi construída pelos pais, tios, irmãos e avôs.

O ‘tamuio’, na crença indígena, simboliza o casulo onde a borboleta (menina-moça) permanece até completar a sua formação para a vida adulta. Após a primeira menstruação, as meninas-índias são confinadas nesta oca, na qual só é permitida a entrada das avós, mães, tias e irmãs mais velhas para os aconselhamentos e o preparo para o ritual que as transformará em mulheres.

No interior do tamuio, a índia Maria Santana Guajajara, considerada a matriarca da aldeia Lagoa Quieta, prepara a neta Rebeca para o ritual. “Essa festa é muito importante para as nossas meninas porque elas vão receber a proteção dos espíritos dos nossos ancestrais. Eles vão protegê-las de todo o mal”, explica.

Rebeca, 12 anos, tem um biotipo diferente das outras meninas-moças.  Sua pele é branca, os cabelos louros e os olhos claros. A mãe é guajajara e o pai não-índio. Para manter a tradição, a garota tem que passar pelo ritual. Enclausurada no tamuio, ela se mostra muito tranquila e afirma que faz questão de participar da festa. Rebeca diz que foi muito bem orientada pela mãe e a avó para a nova vida de mulher adulta na tribo.

O cântico em tupi-guarani, nas vozes masculinas, que começa a ser ouvido por toda a aldeia exatamente às quatro da tarde, é o momento em que as meninas-moças devem sair do ‘tamuio’ para a apresentação à tribo.

Durante o ritual as meninas trocam as vestes duas vezes, ajudadas pelas mães, tias e avós. No início usam uma saia longa na cor vermelha. Os seios, braços e costas ficam desnudos e são pintados com uma tinta azul escura feita do sumo do jenipapo, fruta nativa.

Uma espécie de véu cobre parte do rosto das garotas, que exibem no pescoço adornos de miçangas coloridas e sobre os ombros penas de cor branca.

Antes do término da festa, já ao amanhecer, as meninas precisam retornar ao ‘tamuio’ para trocar a saia vermelha por outra na cor branca. As penas brancas que foram coladas no seu corpo e nos adereços serão trocadas por outras na cor amarela, que simboliza o sol.

SAUDADAS COM CÂNTICOS E DANÇA  

Os cânticos masculinos se tornam mais altos na aldeia, acompanhados por tambores e maracás. São pais, avôs e tios que cantam e dançam em círculo, anunciando que é hora de as meninas-moças deixarem o confinamento para participar da festa.

Sempre em silêncio e de cabeça baixa, as indiazinhas saem do ‘tamuio’ protegidas pelas mães e avós, que também entoam cânticos, e seguem ao encontro dos pais, avôs e tios. Um círculo se forma em volta das garotas em uma dança que simboliza o abraço, o afago e a proteção dos ancestrais. Toda a tribo dança. Os visitantes também acompanham a coreografia dos guajajaras.

Dança e música se prolongaram por toda a noite até o amanhecer. Foram entoados mais de 40 cânticos em tupi-guarani, cujas letras falam de animais e dos personagens da natureza, como sol, lua, estrelas, rios e matas.

Durante a festa foi servida uma bebida à base de mandioca que manteve os índios acordados, cantando e dançando sem parar - homens, mulheres e crianças. 

Edivan Guajajara, compositor das músicas que foram entoadas durante o Ritual da Menina Moça, explica que todas as composições falam sobre a importância da preservação da natureza. “Se não há animais para caçar, rio para beber a água e as florestas para viver, nós índios vamos morrer”, afirma ele.    

O ritual da ‘Menina-Moça’ de Lagoa Quieta foi comandado pelo tamoio Guajajara, líder e pajé da aldeia, uma espécie de sacerdote, a mais alta patente da tribo. O tamoio é o mais velho da comunidade indígena, que tem a missão de preservar as tradições guajajara e ensinar aos mais novos todo o ritual.

Durante todo o decorrer da festa, o Tamoio Guajajara, que a comunidade afirma ter mais de 100 anos, foi revelando às garotas os conhecimentos dos ancestrais indígenas, na linguagem nativa que só eles entendem.

É HORA DE SERVIR O MOQUEADO

Quando o barulho dos fogos de artifício se mistura aos cânticos, é sinal de que o dia já amanheceu e o ritual está chegando ao fim. É nessa hora que começa a ser servido o banquete que dá origem à Festa do Moqueado.

O moqueado também tem toda uma simbologia na tradição do povo guajajara. Significa a fartura de alimentos e também a partilha entre todos os habitantes da aldeia.

Os preparativos começam cerca de dois meses antes do Ritual da Menina Moça. Primeiro decidem a data da festa, em seguida os homens da tribo se embrenham na mata para caçar a comida que será servida no banquete.

Todo o tipo de caça é permitido - macacos, pacas, cotias, veados e não pode faltar o alimento mais importante da festa: a tona ou nambu, um pássaro nativo da região.

A carne da tona tem um valor maior para os índios porque é usada durante o ritual para garantir proteção espiritual às meninas-moças. Partes da ave defumada são passadas nas axilas, tornozelos e pulsos das garotas. Se nenhuma tona fosse caçada, não haveria como realizar a festa.  

Os homens da tribo permanecem por cerca de um mês dentro da mata à procura das caças. Quando retornam à aldeia, os animais abatidos tiveram seus corpos salgados inteiros, dos pés à cabeça. Depois foram colocados para defumar sobre um jirau com brasa, permanecendo neste processo de defumação por cerca de 30 dias.

Um dia antes do ritual, toda a carne da caça, já totalmente ressecada, é cortada e colocada em grandes panelas, onde permanece fervendo até o amanhecer. Pela manhã, o moqueado é levado para o terreiro e compartilhado com todos habitantes da aldeia e visitantes.

A cabeça, miolos e olhos dos macacos são os pedaços mais disputados pela comunidade indígena de Lagoa Quieta. Ao visitante não é permitido rejeitar o moquedo quando lhe é oferecido por algum nativo, ato considerado grande desfeita pelos índios.

TRADIÇÃO AMEAÇADA E RASTRO DE VIOLÊNCIA

Apesar da preocupação e luta da Nação Guajajara em manter a tradição, que já sobrevive por cerca de 380 anos, diversos fatores vêm dificultando, a cada ano, a realização da Festa do Moqueado. Os principais são as queimadas, que destroem as reservas florestais e matam as caças, e o avanço dos madeireiros sobre os territórios indígenas do Maranhão.

Os jovens das aldeias Guajajara também já não demonstram mais interesse em participar da festa.

No ano passado, o fogo atingiu mais de 20% da reserva indígena Arariboia no Maranhão, onde se concentra a maior parte dos guajajaras. Em 2015, o estrago foi ainda maior, deixando mais da metade dos 413 mil hectares do território totalmente em chamas.

Os guajajaras, também conhecidos como tenetearas, são um dos povos indígenas mais numerosos atualmente no Brasil. Habitam onze terras indígenas situadas no Maranhão. No censo de 2010, sua população era de 23 949 pessoas.

Conforme dados parciais do Relatório Violência Contra os Povos Indígenas, de autoria do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em 2016 ao menos 12 índios foram assassinados no Maranhão, dos quais seis guajajara mortos nos meses de novembro e dezembro. Outros cinco da Terra Indígena Arariboia foram assassinados entre março e agosto.

Violências contra o patrimônio - invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e demais atentados somaram 14 denúncias vindas de terras indígenas de todo o estado no ano de 2016. Na TI Arariboia, cerca de 70% do território queimou nos incêndios de 2015 e 2016.

PRECONCEITO AFASTA ÍNDIOS DA UNIVERSIDADE

A jovem universitária Kari Guajajara, de 19 anos, que no registro de nascimento se chama Maria Judite, preocupa-se com o seu povo e luta pela preservação dos rituais da sua tribo. Ela é uma espécie de jovem liderança que está à frente de todas as batalhas de preservação do seu povo. E o Ritual da Menina-Moça é uma delas.

Kari nasceu na aldeia Lagoa Quieta, onde se alfabetizou. Iniciou o Ensino Médio em escola pública de Grajaú e concluiu em São Luís. Aos 16 anos foi aprovada no vestibular da Universidade Federal do Maranhão para o curso de Jornalismo e, logo depois, para o de Direito, que deve concluir daqui a dois anos. Kari ingressou na universidade pública por meio das cotas para índios.

Politizada e integrante de entidades nacionais e internacionais em defesa dos povos indígenas, Kari divide o seu tempo entre o campus da UFMA em São Luís e a sua aldeia Lagoa Quieta. Todos os finais de semana ela enfrenta 16 horas de viagem de ônibus para ficar em contato com a sua tribo.

Além das queimadas e a invasão das áreas de proteção indígena por madeireiros, a universitária guajajara destaca outro problema que maltrata os índios como qualquer outro: o preconceito.

Kari afirma que a forma como os jovens indígenas são tratados pelos não índios quando saem das aldeias para frequentar escolas ou universidades é revoltante. “Sofremos muita discriminação. Olham pra gente de forma diferente, falam coisas que machucam. O preconceito faz com que os índios abandonem os estudos. A taxa de evasão das universidades é muito alta”, explica.

Kari conta que já teve que sair de uma sala de aula para chorar diante de um ataque de discriminação por ser índia. E o agressor foi um professor no curso de Direito. Ela também acredita que o preconceito afasta os jovens guajajara do Ritual da Menina-Moça e também de outras tradições da tribo.

Outro grande temor de Kari é que as novas gerações deixem de dar continuidade às tradições da Nação Guajajara, mas ela garante que por toda a sua vida pretende continuar lutando pela preservação da festa. “Realizar o Ritual da Menina-Moça é manter vivo o meu povo, as minhas raízes indígenas”.

E após concluir o curso de Direito, o sonho de Kari é torna-se magistrada sem afastar-se da sua aldeia e nem da luta em prol da causa indígena. “Quero um dia ver a nação indígena respeitada no nosso País”, disse.        



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