Impactos globais da ação dos EUA na Venezuela são tema de entrevista no ‘Café com Notícias’

Agência Assembleia / Foto: Wesley Ramos

O cenário internacional e as recentes turbulências nas relações entre os Estados Unidos (EUA) e países da América Latina pautaram o programa Café com Notícias desta segunda-feira (12). A apresentadora Elda Borges recebeu o Professor Igor Fóscolo, especialista em Relações Internacionais da UEMA (Universidade Estadual do Maranhão), para analisar a ação militar dos EUA que culminou na detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro e o que isso representa para a ordem global.

Elda Borges iniciou a entrevista abordando a crescente sensação de incerteza nas relações mundiais e a emergência de uma “nova ordem de regras”, em especial, citando a intervenção estadunidense na Venezuela, descrita por alguns como uma espécie de “invasão” ou até mesmo “sequestro” de um chefe de Estado.

Para Fóscolo, o que mais chama atenção na política externa atual dos EUA é sua imprevisibilidade. “É difícil saber o que se passa na cabeça do presidente dos Estados Unidos… cada decisão imprevisível de Trump é um risco para toda a comunidade internacional”, afirmou o professor, ressaltando o caráter errático das decisões tomadas pela Casa Branca nos últimos meses.

O episódio de 3 de janeiro, no qual uma operação militar dos EUA resultou na captura de Maduro, foi um dos temas centrais do debate. Fóscolo classificou a ação como gravíssima sob a ótica do Direito Internacional, por violar tanto a imunidade diplomática de um chefe de Estado quanto dispositivos fundamentais da Carta das Nações Unidas.

Segundo ele, “um Estado só pode agir militarmente em legítima defesa ou com autorização do Conselho de Segurança da ONU”, condições que, na avaliação do professor, não foram atendidas.

Multilateralismo

O especialista lamentou uma mudança de paradigma nas relações internacionais. Para ele, a ordem global regida pelo multilateralismo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, baseada em tratados, instituições e mecanismos coletivos de resolução de conflitos vem sendo gradualmente substituída por dinâmicas de disputa de “zonas de influência”, especialmente desde a invasão da Rússia à Ucrânia em 2022.

Dentro desse contexto, a Venezuela emergiria como peça central da geopolítica recente, em parte por seu alinhamento com a China, então principal comprador de petróleo venezuelano em 2025, o que teria contrariado interesses estratégicos estadunidenses na região.

Outro ponto de destaque foi a relação dos EUA com a Colômbia após a eleição de Gustavo Petro, cuja orientação política de esquerda, segundo Fóscolo, rompeu com o tradicional alinhamento automático com Washington no combate ao narcotráfico.

O professor também acionou a simbologia histórica da Doutrina Monroe, sugerindo que a visão externa de Trump remete a uma releitura de “A América para os americanos”, com os EUA buscando manter um controle hegemônico sobre a América Latina.

Quanto às consequências práticas da intervenção, Fóscolo listou imposições feitas pelos EUA contra a Venezuela, incluindo um controle político direto de pelo menos um ano, a venda compulsória de 50 milhões de barris de petróleo ao mercado estadunidense e a exigência de que os recursos dessa comercialização fossem reinvestidos em produtos americanos.

‘Diário da Manhã’ aborda impactos do conflito e ataque dos Estados Unidos à Venezuela

Agência Assembleia / Foto: Kristiano Simas

Os impactos do conflito e ataque dos Estados Unidos à Venezuela foram tema do programa ‘Diário da Manhã’, da Rádio e TV Assembleia, desta quarta-feira (7). Os entrevistados foram o professor Igor Ferreira Fóscolo, mestre do Curso de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Maranhão (Uema); e a aluna Lorenna Costa.

Em conversa com o apresentador Ronald Segundo, os convidados analisaram o episódio do sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro e os bombardeios à capital Caracas, ocorridos na madrugada do último dia 3 de janeiro, ordenados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Graduado em Relações Internacionais pela PUC de Minas Gerais, o professor Igor Ferreira Fóscolo disse que o ataque dos EUA à Venezuela “abre um precedente perigoso nas relações internacionais na medida em que se trata de uma ação imperialista de um Estado invadindo o outro em tempo de paz. Esse episódio, ao nosso ver, não tem precedente no Direito Internacional que justifique essa situação”.

A estudante Lorenna Costa, que cursa o último período de Relações Internacionais, observou que Donald Trump já vinha sinalizando a possibilidade de intervenção na Venezuela: “O que chocou foi a declaração aberta de guerra contra um país latino-americano, o que gera temor muito grande para toda a comunidade internacional”, assinalou.

professor Igor Ferreira Fóscolo frisou que há um clima de expectativa e de incertezas porque não se sabe o que pode acontecer daqui por diante em razão dos desdobramentos do ataque dos EUA à Venezuela.

Ele acrescentou que, após a operação em Caracas, o presidente dos EUA intensificou discurso contra o México, Colômbia e Cuba, além de reforçar interesse estratégico na Groenlândia, ilha dinamarquesa rica em minerais raros.

“Esse episódio traz a necessidade de se refletir sobre os caminhos que podemos ter em relação ao multilateralismo, um orquestramento que hoje sustenta a paz no mundo”, disse Igor Fóscolo.

Sem fundamentação

Durante a entrevista, o professor foi enfático ao afirmar que a ofensiva militar dos EUA contra a Venezuela, na madrugada de sábado (3), não possui fundamentação no Direito Internacional. Ele traçou paralelos entre a atual intervenção americana e ações anteriores na América Latina, como a operação contra Manuel Noriega, no Panamá.

“Existem algumas semelhanças com relação a sanções econômicas e tentativa de sufocar o regime antes de uma ação mais ativa, como aconteceu nesse caso”, explicou o especialista.

Ele destacou que, inicialmente, Donald Trump utilizou o combate ao narcotráfico como justificativa para a intervenção. “O argumento inicial foi a questão das drogas. Trump afirmou que os Estados Unidos tinham um problema muito grande com a Venezuela porque ela é uma grande fornecedora de drogas”, relatou Fóscolo.

O professor observou que os reais motivos por trás da ação militar americana podem estar relacionados a interesses econômicos e geopolíticos. “Trump já havia falado no seu primeiro mandato como presidente por que os Estados Unidos não tomavam a Venezuela, que tem a maior reserva de petróleo do mundo reconhecida”, comentou o professor.

Ele lembrou que Trump afirmou que os EUA irão “administrar” a Venezuela de forma interina, anunciaram a entrada de petroleiras norte-americanas no território venezuelano e declararam que pretendem ampliar “o domínio americano no Hemisfério Ocidental”. Trump também invocou a Doutrina Monroe, formulada em 1823, segundo a qual a América Latina estaria sob a influência direta de Washington.

“O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, declarou o presidente norte-americano, ao anunciar que empresas dos EUA passarão a controlar a indústria petrolífera venezuelana. “Vamos fazer o petróleo fluir”, prometeu Trump.

Para o professor Igor Ferreira Fóscolo, esse discurso não apenas confirma o caráter econômico da ofensiva como evidencia o colapso das normas internacionais construídas no pós-Segunda Guerra Mundial.

Carlos Lula vê lições para o Brasil na eleição de Trump e defende atenção aos anseios da classe trabalhadora

Assecom / Dep. Carlos Lula

Nesta quarta-feira (6), o deputado estadual Carlos Lula (PSB) comentou o impacto da eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos para o campo progressista no Brasil. Para o parlamentar, o resultado reforça a necessidade de redirecionar o foco para a classe trabalhadora, cujas demandas muitas vezes ficam à margem dos programas sociais existentes.

“A classe média baixa, composta por famílias que ganham acima de dois salários mínimos e não têm acesso ao Bolsa Família ou a outros benefícios sociais, recebe do Estado brasileiro apenas uma alta carga tributária, serviços públicos deficientes e insegurança nas ruas”, afirmou.

Carlos Lula observou que o ressentimento da classe trabalhadora norte-americana em relação ao sistema político e seus representantes foi um dos fatores determinantes para o retorno de Trump ao poder. Segundo ele, essa insatisfação reflete a necessidade de um discurso que realmente atenda às preocupações diárias da população e que vá além dos discursos voltados para a academia.

“As preocupações reais dos brasileiros precisam ser abordadas de forma direta. O que a eleição dos EUA pode ensinar ao Brasil é a importância de sair da bolha universitária e reconectar-se com a vida das pessoas comuns. É preciso olhar para os problemas que se encontram no ponto de ônibus, no cotidiano de quem trabalha e enfrenta dificuldades. Temos que falar não só com quem leciona nas universidades, mas principalmente com aqueles que limpam essas universidades e vivem a realidade dura do dia a dia,” pontuou o deputado.

O parlamentar ressaltou a necessidade de o campo progressista brasileiro repensar suas estratégias e se reaproximar dos anseios populares para não repetir os erros vistos no cenário internacional.