‘Toda Mulher’ destaca pesquisa que monitora mães e bebês desde o parto e produz dados que orientam políticas públicas

Agência Assembleia

A forma como uma sociedade cuida de suas crianças desde o nascimento diz muito sobre o futuro que ela projeta. Foi a partir dessa perspectiva que o programa ‘Toda Mulher’, exibido nesta quarta-feira (28) pela TV Assembleia, recebeu a professora doutora Carolina de Carvalho, coordenadora da pesquisa Coortes de Nascimentos São Luís 2026, um dos mais importantes estudos em saúde materno-infantil já realizados no Maranhão.

Coordenada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por meio do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, a pesquisa acompanha mães e recém-nascidos desde o parto, com previsão de seguimento ao longo da vida. Trata-se da terceira coorte realizada na capital maranhense, dando continuidade a uma trajetória científica iniciada em 1997/1998 e retomada em 2010.

Segundo Carolina Carvalho, os estudos de coorte permitem compreender como fatores sociais, econômicos e de saúde interferem no desenvolvimento humano ao longo do tempo. “A gente costuma dizer que estudos como o nosso mostram como coisas que acontecem quando o bebê nasce, mas também antes mesmo do bebê nascer, podem influenciar a saúde dele por toda a vida”, destacou.

Estudo

A Coorte de Nascimentos São Luís 2026 acompanha, de forma inédita, cerca de metade dos nascimentos ocorridos na cidade ao longo do ano, por meio de sorteio aleatório realizado nas maternidades participantes. Ao todo, seis unidades integram o estudo, entre elas o Hospital Universitário Materno-Infantil e a Maternidade de Alta Complexidade do Maranhão.

A abordagem inicial ocorre ainda no leito hospitalar, quando as mães são convidadas a participar da pesquisa. “A gente vai no melhor momento até o leito onde ela está, explica a relevância da pesquisa e como esse acompanhamento pode ajudar não só o bebê dela, mas outras mães, futuras gerações e até políticas públicas”, explicou a coordenadora.

As entrevistas duram cerca de 30 minutos e incluem informações sobre pré-natal, parto, condições socioeconômicas, escolaridade e saúde da gestante. “A situação socioeconômica da família é uma variável muito importante para nós, porque ajuda a entender em que contexto essa criança vai se desenvolver”, ressaltou.

Evidências orientam prevenção

Ao longo de quase três décadas, as coortes de São Luís já revelaram achados relevantes. A professora citou, por exemplo, estudos que associaram infecção urinária durante a gestação ao maior risco de parto prematuro. “Substâncias inflamatórias liberadas durante a infecção podem aumentar as contrações uterinas e levar a um desfecho que não é o desejado”, explicou.

Outro dado preocupante envolve a violência sofrida por mulheres grávidas. “Nós observamos que mães que sofreram violência na gestação tiveram bebês com maior risco de infecções aos dois anos de idade. O estresse crônico interfere no desenvolvimento do sistema imunológico da criança”, afirmou.

A alimentação infantil também é um dos focos da pesquisa. “Infelizmente, a gente tem encontrado prevalências altas de consumo de açúcar e de alimentos ultraprocessados, inclusive em crianças muito pequenas”, alertou. De acordo com a pesquisadora, o consumo excessivo de açúcar aos dois anos de idade já foi associado ao desenvolvimento de asma, enquanto entre adolescentes o excesso representa um risco importante para obesidade e doenças crônicas.

Edição 2026

A edição de 2026 da pesquisa incorpora temas que refletem mudanças recentes na sociedade, como o uso de telas desde a primeira infância, o consumo de cigarros eletrônicos e questões relacionadas à saúde mental. “A coorte vai se adaptando às demandas da sociedade. Hoje, por exemplo, não dá mais para ignorar o impacto do tempo de tela na vida das crianças”, observou Carolina.

Os estudos também têm apontado aumento de problemas de saúde mental em faixas etárias cada vez mais jovens. “Infelizmente, temos encontrado altas prevalências de depressão e outros transtornos, inclusive em crianças e adolescentes. Nosso objetivo é entender como experiências ao longo da vida ajudam a explicar esses desfechos”, disse.

Para a coordenadora, investir em prevenção é um dos maiores ganhos proporcionados pelos estudos de coorte. “É muito mais barato investir em um bom pré-natal, orientar essa mulher antes e durante a gestação, do que tratar uma doença crônica quando ela já está instalada”, ressaltou.

Carolina Carvalho reforçou ainda que os dados produzidos ao longo de 30 anos constituem um patrimônio científico do Maranhão. “As coortes de nascimentos de São Luís são uma riqueza de informações que podem contribuir, sem dúvida alguma, para políticas públicas mais justas. Estamos abertos ao diálogo com gestores, legisladores e a sociedade”, afirmou.

Os resultados da pesquisa subsidiam dissertações, teses e publicações científicas nacionais e internacionais, ampliando o impacto do estudo para além do Maranhão. “O que a gente descobre hoje vai influenciar a forma como cuidamos da saúde dessas pessoas no futuro, inclusive quando elas forem adultas ou idosas”, concluiu a pesquisadora.

O programa ‘Toda Mulher’ é apresentado por Márcia Carvalho, vai ao ar todas as quartas-feiras, às 15h, pela TV Assembleia (canal aberto digital 9.2; Maxx TV, canal 17; e Sky, canal 309), com reprise na programação da emissora. A atração também pode ser vista pelo canal do Youtube. 

Mães Solo – Carlos Lula luta por políticas públicas para mulheres chefes de família

Texto e fotos: Assecom/ Dep. Carlos Lula

“Eu sou mãe solteira e como nunca tive condições de pagar alguém para ficar com meus filhos e nem acesso à creche, por muitos anos, trabalhei como vendedora de lanche para conseguir sustentá-los e, ao mesmo tempo, acompanhar a criação deles, suprindo a condição de pai e mãe. Não foi fácil e ainda não é”, conta Léia Silva, 44 anos. Atualmente, a mãe solo trabalha como merendeira pela manhã e ambulante durante à tarde para conseguir sustentar seus dois filhos, Álvaro, de 16 anos, e Dante, de 9 anos.

A história de Léia retrata a realidade de mais de 11 milhões de mães que criam seus filhos sozinhas no Brasil, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O estudo mostrou ainda que, entre 2012 e 2022, o país ganhou 1,7 milhão de mães com a responsabilidade de criarem os filhos sem a ajuda do pai. Atualmente, 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo, sendo a maior proporção nas Regiões Norte e Nordeste.

Na busca por melhorar a qualidade de vida das mulheres no Maranhão, está em andamento na Assembleia Legislativa um Projeto de Lei proposto pelo deputado estadual Carlos Lula (PSB). A proposta parlamentar prioriza as mães solo em situação de vulnerabilidade social, assim como seus dependentes, garantindo-lhes acesso preferencial às políticas públicas estaduais.

“Temos no Brasil milhões de mulheres que são chefes de família, são mães solteiras, que tomam conta de casa e tomam conta, geralmente, dos filhos também. Boa parte delas, praticamente 60%, são mulheres que vivem em situação de pobreza e extrema pobreza, com muita dificuldade, por isso, precisamos de políticas públicas voltadas, focadas e pensadas para elas, exatamente onde se permita ser possível a redução de desigualdades”, explica Carlos Lula.

O Projeto de Lei visa oferecer apoio social e econômico às mulheres em situação de vulnerabilidade que estão criando seus filhos sozinhas. Além disso, busca promover segurança econômica e alimentar, reduzir as disparidades de gênero e de oportunidades enfrentadas pelas mães solo. Entre as medidas propostas estão a ampliação da oferta de cursos de capacitação ou aperfeiçoamento profissional, bem como prioridade no acesso à rede pública estadual de ensino para os filhos dessas mulheres, visando facilitar sua inserção no mercado de trabalho.

Para Léia Silva, a aprovação de uma lei que cria políticas públicas voltadas para as mães solo sempre foi um sonho. “Eu sempre pensei um dia haveria uma pessoa que pudesse olhar para essas mães que se esforçam tanto para criar os seus filhos sozinhas. O Estado e o Governo precisam dar algum tipo de apoio para nós que somos pais e mães, pois a nossa realidade é muito difícil. Ver que essa iniciativa já existe me deixa muito feliz”, revelou.

Nos últimos anos, a ausência paterna tem sido uma realidade em constante ascensão no Brasil. Segundo os dados fornecidos pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Bras) para o ano de 2023, entre os 2,5 milhões de nascimentos registrados no país, 172,2 mil bebês nasceram em famílias onde o pai não estava presente, representando um aumento de 5% em relação aos 162,8 mil casos registrados em 2022. O Norte do país apresentou a maior proporção de pais ausentes, totalizando 10% do número total de nascimentos, o que corresponde a 29.323 casos, seguido pelo Nordeste, onde 8% dos bebês nasceram em famílias com ausência paterna, totalizando 52.352 casos.

“Atendendo essas mulheres, estaremos atendendo melhor a sociedade. Se fizermos um cruzamento entre pobreza, desigualdade e onde precisamos melhorar, muitas vezes vamos encontrar exatamente a mãe solteira que cuida de dois, três, quatro filhos sozinha, em boa parte dos casos sem nenhum tipo de ajuda do pai. Então são essas mulheres que precisam ser atingidas por políticas públicas e esse é o objetivo da nossa lei. Esperamos que em breve a Assembleia possa aprová-la para que vire política pública e mude a realidade de tantas mulheres”, pontuou Carlos Lula.