22 de dezembro de 2025
Tiquira: o destilado ancestral do Maranhão que conquista apreciadores Brasil afora
A tiquira atravessou séculos marcada por estigmas e preconceitos. Hoje, o processo de produção alia pesquisa e novas técnicas para atingir a excelência em destilados
Agência Assembleia / Por Brena Rodrigues / Fotos: Kristiano Simas
Destilar é, antes de tudo, extrair o espírito. É dessa definição que parte a história da tiquira, bebida produzida a partir da mandioca e considerada o destilado mais antigo do Brasil. No Maranhão, ela representa muito mais do que um produto, ela carrega saberes indígenas, memória cultural e resistência.
Resultado da combinação entre o método indígena de preparo da mandioca e a tecnologia de destilação trazida pelos europeus, a tiquira atravessou séculos marcada por estigmas e preconceitos. Durante muito tempo, foi vista como uma bebida de menor valor, associada apenas ao consumo popular ou à curiosidade turística. Esse cenário começou a mudar a partir de pesquisa, técnica e da dedicação de produtores que decidiram transformar tradição em excelência.
O processo de produção é cuidadoso e demorado. A destilação só começa após o fermento neutralizar completamente o açúcar da mistura, exigindo muitas horas de trabalho até que se atinja o ponto ideal.

O início de uma jornada
Um dos nomes centrais dessa transformação é o da mestra alambiqueira Margô Stingel. Filha de mestres cervejeiros, Margô conheceu a tiquira em Santo Amaro, no coração dos Lençóis Maranhenses, durante um ensaio de Bumba Meu Boi. A curiosidade inicial logo se transformou em interesse profundo pelo produto.
mestra alambiqueira Margô Stingel com as
“No meio do ensaio, os brincantes pararam e gritaram: boi seco! Logo em seguida vieram com uma rodada de tiquira, e quando perguntei o que era aquilo, eles me falaram que era uma bebida feita da mandioca. Eu provei, achei muito forte, mas interessante porque não era uma bebida de sabor doce”, relembra.
Para Margô, a tiquira carrega uma identidade ainda mais profunda do que outros destilados nacionais. “As pessoas falam que o destilado brasileiro é a cachaça. A cachaça é brasileira também, porém, a tiquira é muito mais porque ela é, literalmente, nacional desde a raiz”, afirma.
A partir desse encontro, vieram anos de pesquisa, aprendizado técnico e decisões estratégicas. Uma delas foi manter toda a produção no Maranhão, como forma de preservar a origem e a representatividade do produto local.

Do tanque ao alambique: o rigor técnico da produção
A fabricação da tiquira acontece em etapas rigorosamente controladas, em salas específicas do alambique instalado em Santo Amaro. O processo começa com o cozimento da massa da mandioca, que permanece de três a quatro horas em tanques aquecidos. Em seguida, o líquido separado da massa passa por três tanques de inox para resfriamento gradual.
A fermentação ocorre em um ambiente cuidadosamente monitorado, onde o fermento neutraliza todo o açúcar presente na mistura. “Aqui fica com um cheirinho de pão”, descreve Margô, ao explicar o processo.
A destilação só começa quando essa etapa é concluída. No alambique de cobre, o caldo da mandioca é aquecido para que apenas o álcool evapore. “Na Guajá, utilizamos somente o ‘coração’ da destilação”, explica a mestra alambiqueira. O próprio nome da bebida traduz esse cuidado: tiquira significa líquido que goteja.

Resistência e mudança de paladar
Apesar da qualidade técnica, o caminho não foi fácil. Margô Stingel enfrentou resistência ao apresentar a bebida fora do interior. Com o tempo, o cenário começou a mudar e, hoje, a mestra alambiqueira já acumula mais de 16 prêmios e medalhas com esse destilado.
Em Santo Amaro, bares e outros comércios passaram a apostar na bebida. O comerciante Antônio José, conhecido como ‘Seu Cuica’, transformou a tiquira no principal produto de seu estabelecimento. “Hoje a tiquira está se tornando o carro-chefe tanto para os moradores como para os visitantes. O pessoal do Sul gosta muito”, assegura ele.
O consumo costuma vir acompanhado de caju fatiado, limão ou manga com sal, realçando sabores e reforçando as tradições locais.

Protagonismo feminino na produção
A destilaria é conduzida por uma equipe formada por três mulheres: Margô Stingel, Leonice Lira e Maria de Lourdes Sousa, a Lourdinha. O sonho individual se transformou em projeto coletivo desde a construção do primeiro tijolo do alambique.
Leonice começou como ajudante na obra. “Comecei na obra carregando material de construção. Ela me deu essa oportunidade e até hoje estou aqui”, conta.
Já Lordinha foi quem apresentou a tiquira a Margô.“Ela me disse que ia investir na tiquira e eu iria acompanhá-la. Não tive nem como dizer não”, relembra.

Reconhecimento, diversidade e projeção nacional
Em 2023, a tiquira recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão, um marco na valorização da bebida. Atualmente, o alambique produz quatro tipos distintos.
A Guajá Prata é branca e descansa por seis meses em tanques de inox. A Amburana, de coloração amarelada, permanece um ano em madeira brasileira. A Tiquira Carvalho é maturada por 12 meses em barris de carvalho, adquirindo um sabor mais intenso. Já o Tiqueiro se destaca pela coloração lilás, sabor frutado e teor alcoólico menor, de 34%, enquanto as demais mantêm o padrão de 40%.
A produção anual varia entre 15 mil e 18 mil garrafas. Cerca de 80% desse volume é comercializado fora do Maranhão, onde a bebida é reconhecida como item de alta gastronomia.

Indicação Geográfica
Com esse histórico, a tiquira pode se tornar o primeiro produto genuinamente maranhense a receber a Indicação Geográfica (IG), certificação que reconhece produtos cujas características estão diretamente ligadas ao território de origem.
A reportagem também ajuda a derrubar mitos populares, como a crença de que quem bebe tiquira não pode tomar banho ou molhar os pés. A recomendação é clara: consumo moderado, apreciação consciente e valorização cultural.
Entre desafios, paisagens naturais e reconhecimento institucional, a tiquira segue seu caminho como símbolo de identidade, tradição e inovação. Mais do que uma bebida, ela representa o Maranhão que preserva suas raízes e projeta seu futuro com orgulho.
Mais notícias
Educadora financeira mostra, no ‘Café com Notícias’ como ter equilíbrio no orçamento e viver sem ‘apertos’
Núbia Sousa alertou, no programa, que 70% das famílias do País estão endividadas, deu dicas de consumo consciente…
Autor da Lei do Primeiro Emprego para a Enfermagem, deputado Catulé Júnior celebra sanção com o Coren-MA
A Lei nº 12.779/2026 fixa a inserção de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, com até dois anos…
‘Diário da Manhã’ aborda combate ao tráfico de pessoas e erradicação do trabalho escravo no Maranhão
Atuação do TRT-MA e parceiros tem possibilitado o aumento das denúncias e de trabalhadores resgatados, segundo a juiz…
‘Café com Notícias”: Especialista destaca a cirurgia bariátrica como procedimento essencial no tratamento da obesidade
O cirurgião do aparelho digestivo Giuliano Campelo afirmou que, apesar do avanço de medicamentos, como o Mounjaro, o…
“Uso das canetas emagrecedoras requer orientação médica”, alerta nutricionista no ‘Diário da Manhã’
Carol Carvalho explicou, no programa, que o uso desses medicamentos sem acompanhamento profissional é um risco exacerbado à…
Creche-Escola Sementinha promove palestra sobre Inteligência Emocional durante Semana Pedagógica
Objetivo da atividade é fortalecer o cuidado emocional dos educadores, reconhecendo a importância desse aspecto tanto para a…
Resultados e desafios do Selo Unicef são debatidos no ‘Café com Notícias’
Certificação só é concedida aos prefeitos que cumprem rigorosamente metas nas áreas de saúde, educação e proteção de…
‘Pautas Femininas’ discute conflito entre Venezuela e Estados Unidos e impactos na América Latina
Edição contou com a participação da professora e pesquisadora Zulene Muniz